Se os castigos podem ter impacto no desenvolvimento emocional das nossas crianças, a que podemos recorrer? Existem alternativas que promovam competências como a autonomia, a autoconsciência e o respeito pelo outro? Sim existem! Um exemplo podem ser as consequências conscientes e é sobre elas que vamos falar.

Uma consequência consciente é refletida e preferencialmente partilhada entre o adulto e a criança. A base deste tipo de consequências é a empatia e o objetivo a promoção do desenvolvimento emocional da criança. Não é punir, reprimir, ignorar ou julgar mas antes facilitar que a criança possa aprender a fazer as suas escolhas e encontrar as suas soluções e, ao mesmo tempo, auxilia-la a desenvolver o seu sentido de responsabilidade. Quando castigamos estamos a dizer à criança que o que fez foi errado, mau, feio. Quando definimos com ela uma consequência consciente estamos a possibilitar que a criança possa aprender a fazer a sua própria reflexão e escolha.

A definição de uma consequência deve acontecer num ambiente de calma e não no meio do caos emocional. Num momento tranquilo, num ambiente seguro, o adulto e a criança devem sentar-se e conversar de forma aberta e autêntica.

Vamos imaginar o exemplo do João, 8 anos, que perdeu o casaco, pela segunda vez no espaço de pouco tempo, na escola. O momento em que os pais e o João se apercebem dessa perda pode não ser o ideal para conversar sobre consequências, pois podem todos os envolvidos estar a sentir-se irritados ou frustrados. Mais tarde, com todos mais serenos, há tempo para conversar. Mais do que julgar e atacar a criança, o adulto deve expor de forma clara como se sentiu perante a situação ou o comportamento. E no caso do João, a mãe poderia dizer “João, reparei que perdeste novamente um casaco na escola. Quando isso acontece sinto-me muito frustrada. Não é viável comprarmos um casaco novo todas as semanas. O que pensas sobre isto?” Pode dar-se espaço para que a criança fale também do que sentiu ou sente. E, em conjunto, podem procurar soluções – “O que achas que podes fazer para não perder o teu casaco na escola?”. Ouvir a criança, sem a julgar é essencial. Que hipóteses apresenta? No caso do João talvez surja a hipótese de procurar novamente na escola, falando com auxiliares ou professores; talvez surja a ideia de usar um casaco mais velho durante uns dias até que se perceba se efetivamente está perdido; pode ser que seja sugerido que o João faça algumas tarefas no ambiente familiar (que não costumam ser da sua competência), para que possa ganhar o dinheiro suficiente para comprar um casaco novo; talvez seja apontada a ideia de identificar o novo casaco, para que seja mais fácil reconhecê-lo no futuro. As sugestões podem ser muitas! O importante é que seja escolhida uma consequência que tenha ligação lógica ao comportamento e que seja viável para ambos. Escolher consequências irrealistas não vai permitir que seja viável mantê-las. Definam consequências reais, possíveis, e que sejam ajustadas a todos os envolvidos.

Este é um processo e não uma garantia de solução imediata. A vida vai desenrolar-se, e é natural que a situação que levou à definição de consequências conscientes surja novamente. E a criança pode ou não “falhar”. Faz parte do processo. É para isso que, em conjunto, definiram uma consequência. Procure evitar as expectativas e os julgamentos sobre a criança. Ela vai fazer o melhor que conseguir. O seu papel, enquanto mãe/pai/educador é, com muita compaixão e respeito, apoiar e orientar. A empatia pode estar sempre presente, mesmo se necessitar aplicar a consequência que definiram ou no caso de se revelar importante voltar a conversar sobre o assunto e encontrar novas estratégias.

Inês Oliveira

Psicóloga clínica e Facilitadora de Parentalidade Consciente